A bodega do Papai, na saudosa Messejana

Realmente nossa bodega era diferenciada! Tinha de um tudo e dela boas lembranças nunca faltarão. As histórias sobre a bodega do meu pai nos conduzem a saudades das mais felizes, as quais eu quis compartilhá-las com vocês. Que o passeio que faremos tenha significado para você como uma volta ao passado!

Meu querido pai, Sr. Alfredinho, foi o primeiro comerciante no Mercado a utilizar o forro de Volterrana (1), dando um ar de modernidade ao local e atenção a clientela. Meu pai tinha um cuidado todo especial tanto na arrumação quanto na limpeza do seu estabelecimento e não admitia casa ou teias de aranhas enfeitando o teto.

Inúmeras foram as vezes que estando presente pude observar pessoas chegando para uma conversa de pé de balcão, parecendo meio tensas e após a conversa com meu pai saíam com um semblante animado com um ar de felicidade expressado no rosto! Meu pai era paciente no ouvir e cuidadoso no responder. Acredito que ali as pessoas se sentiam acolhidas e valorizadas, escutava a todos indiscriminadamente. Mantinha uma relação de amizade e respeito com os demais comerciantes do Mercado de Messejana e com simpatia recebia as pessoas que eram as autoridades da época: o delegado, o coletor de tributos, o escrivão do cartório, o polêmico e carismático Padre Pereira, figura ímpar que nas suas pregações soltava pérolas que caíram no folclore da nossa querida Messejana e bairros adjacentes.

Assim, na bodega do Sr. Alfredinho, como era conhecida, havia sempre debates, opiniões e críticas relacionadas ao jogo do domingo dos principais times locais, Messejana e Salgado da Gama, cujas torcidas mantinham uma saudável convivência apesar das rivalidades. Portanto tudo fazia parte de um contexto não apenas comercial, mas também social. O pessoal ali se encontrava e com certeza fortalecia a amizade tão característica na comunidade messejanense naquela época. Agora vamos fazer um passeio nesse local de tantas e maravilhosas lembranças onde passei momentos da minha infância e aprendi muito convivendo nesse ambiente tão complexo, gerido e administrado pelo meu pai, o Sr. Alfredinho, o bodegueiro da esquina como algumas vezes era assim referido: o pessoal sempre dizia: “vai lá à bodega do Sr. Alfredinho que irás encontrar o que procuras”.

Localizada na esquina do Mercado de Messejana, era uma bodega (assim que ele queria ser reconhecido, como bodegueiro). Meu pai, durante 58 anos esteve à frente do seu comércio, somente se ausentando quando ia ao Centro de Fortaleza, percorrendo os armazéns, principalmente os da Rua Conde D’Eu, próximos do Mercado Central e da Catedral da Sé, para compras de abastecimento do seu ponto comercial. A freguesia extrapolava a  Messejana vinda dos bairros circunvizinhos, Lagoa Redonda, Paupina, Barroso, Cajazeiras, Parque Iracema além de outros mais distantes.

A bodega ficava em um imóvel de esquina, com quatro portas de frente e duas na lateral, que faziam vizinhança com o Açougue da época. Na frente, duas portas, quase sempre fechadas, empatadas por sacos empilhados e da mesma forma na lateral apenas uma ficava aberta. O balcão em forma de “L” era de alvenaria com um tampo de madeira onde estavam postos quatro móveis de madeira vazados por vidros para dar visão dos seus conteúdos os mais variados: lápis comuns, borrachas de apagar, brancas e vermelhas, cadernos e cadernetas escolares, caixas de lápis de cores, lápis de carpinteiro, réguas de madeira, maços de papel pautados, agulhas de mão e para máquina de costura, agulhas de crochês, perfumarias, sabonetes, pasta de dentes, brilhantina, extrato Uirapuru, aparelhos e lâminas de barbear; elásticos em fita e roliços de vários tamanhos, meadas de linhas esterlinas, pincel de barba, linhas em novelos, tesouras, alfinetes, colchetes, lixa de unhas, bilas etc.

E ainda, sobre o balcão, que era um móvel de madeira com tampas móveis, e vazado na frente por um vidro, que dava amostra do seu conteúdo, ficavam expostas rapaduras, batidas, cocadas, broas, bolachas, mariolas, coxão de moça, roscas de goma, Maria maluca, guloseimas que faziam a festa das crianças No meio um dos móveis servia de depósito para farinha e açúcar e que na parte de cima um suporte que acomodava os vidros (bombonieres) com as especiarias da época: bombons, chicletes, pippers, caramelos, balas em forma de bicos de açúcar, azedinhos com mel de abelha. Tudo isso para meus filhos era uma festa, quando o papai os pegava pelos braços e deixava que metessem as mãos nas bombonieres enchendo as mãos do que mais lhes interessavam, pura satisfação de crianças agradecidas pelo carinho e atenção carinhosa do avô. 

Do lado um giral (2) de madeira onde estavam os sacos com bocas dobradas dos cereais que eram retirados com uma concha para pesagem: arroz, farinha d’água, goma, feijão branco, mulatinho e de corda na balança de dois pratos com seus pesos de vários tamanhos. Após pesado, o cereal era embrulhado no papel próprio com extrema habilidade manual parecendo no final como fechado por um fecho-ecler.

Ao lado deste outro móvel, ficavam prateleiras expondo pregos, parafusos, tachinhas, alicates, martelos, brocas de pua, serras, serrotes, formões, lixas, raspadeiras, desempenadeiras de massa, niveladores para reboco o líquido e de dois pesos, machados, enxadas e enxadecos, talhadeiras, foices, pólvora e chumbos de caça. E por trás desse móvel uma mesa com duas gavetas onde meu pai guardava as cadernetas com anotações dos fregueses que pagavam no final do mês e mais o livro caixa do apurado para avaliação no final do ano. Lembro de um espaço na lateral onde existia uma grade de madeira para proteção das garrafas de bebidas que eram vendidas em doses e em copos próprios lavados numa bacia e pendurados num suporte apropriado para enxugar. O tira-gosto era uma rodela de limão. Ao lado e por fora do balcão um tambor de querosene com uma bomba de sucção para venda no varejo e em cima os rolos de cordas variadas em espessuras e de arame farpado.  Uma coisa que não faltava era o fumo de rolo que era vendido em fatias para ser mascado e para confecção de cigarros do fumo picado. Para o corte meu pai usava uma faca amolada cuidadosamente para um corte perfeito e de uma só vez, parecendo um ritual. No final do balcão os fardos de carne do sul, pirarucu e bacalhau vendidos no peso. Na parte vazada por baixo do balcão encontravam-se os tambores com carbureto, tintas para paredes, o ocre e o amarelo, enxofre, breu e laca em escamas.

Todos os anos uma limpeza geral na bodega era realizada! Tudo era colocada na calçada para retirada de toda poeira ou sujeira peça por peça, era passado um pano para total e criteriosa limpeza. Nesses momentos eu e meu irmão mais velho, o Maninho, ajudávamos e era para nós uma aventura participar desse momento virando a noite para na manhã seguinte está tudo em condição de serem arrumados em seus devidos lugares. A parte pesada, que dependia de força, era feita pelo POPÓ que nos ajudava na retirada e reposição das mercadorias, um ser humano especial que gostava de ajudar a quem o procurasse para qualquer serviço.

Espero que tenha lhes proporcionado uma viagem num passeio que os levou a longínquas lembranças com recordações as mais felizes.

Francisco Parente Brandão

(1) Volterrana - A laje volterrana é um tipo de laje pré-moldada de concreto armado, utilizada em construções residenciais, comerciais e industriais. É composta por vigotas de concreto armado e blocos de enchimento.

(2) Giral - Giral é uma palavra que significa "estrutura de suporte" e tem origem na palavra tupi jirau.

Imagem colorizada do Mercado de Messejana da Internet



Exibir todas as reportagens e textos sobre Messejana