A chegada da televisão no Ceará

 

 

  

No dia 26 de novembro de 1960, era inaugurada a TV Ceará Canal 2, a primeira emissora de televisão do Ceará. Na época, Fortaleza contava com cerca de 500 mil habitantes e apenas 200 televisores, já que a novidade ainda era um luxo de famílias mais abonadas.

 

Como integrante da rede TV Tupi de Televisão dos Diários Associados, a TV Ceará começou com uma programação ainda tímida, pois a estação entrava no ar por volta das cinco da tarde, e encerrava as transmissões no máximo às onze da noite.

 

Entre 1961 e 1966, o Canal 2 se apoiou em programação local, já que na época ainda não existia as transmissões via satélite para todo o Brasil. Na abertura slides mostravam a seqüência da programação do dia que consistia de noticiários, novelas, humorísticos e dramas encenados ao vivo por artistas locais, um autêntico teatro televisionado. De fora mesmo só os seriados dublados que chegavam de avião para serem transmitidos e transferidos a seguir para outras estações.

 

Foi um período de muita criatividade, pois Fortaleza saía da era do rádio, já que contava com cinco emissoras - Rádio Iracema, Ceará Rádio clube, Verdes Mares, Uirapuru e Rádio Dragão do Mar, para a o mundo da telinha prateada- a televisão.

 

As novelas, e os programas que dependiam de dramaturgia e interpretação eram transmitidos ao vivo, e os noticiários idem. Esses últimos tinham como recurso de apoio, slides e reportagens filmadas sem som, de modo que era tudo muito primitivo,mas feito com muito apuro. Detalhe- Era tudo em preto e branco, já que a TV a cores era um passo a ser dado em um futuro ainda meio remoto.

 

GRANDES NOMES

 

O formato do rádio inclusive com seus programas de auditório, logo ganhou imagens através da TV Ceará. A dramaturgia contava com nomes que brilhavam no radioteatro da Ceará Rádio Clube, emissora agregada ao Canal 2, já que na época as novelas de rádio ainda estavam no auge.

 

João Ramos, Ary Sherlock, Emiliano Queiroz, Jório Nertal, Íris Brenno, Antônio Mendes, Gonzaga Vasconcelos, Rinauro Moreira, Maria Luísa, Ísis Martins, Jane Azeredo, Augusto Borges e Wilson Machado eram nomes que brilhavam tanto no teleteatro, como na programação em geral.

 

Renato Aragão debutou no Canal 2, no início dos anos 60, com o programa “Vídeo Alegre” contracenando com Américo Picanço, para depois adquirir o atual renome nacional.

 

O noticiário consistia no Noticiário Relâmpago da Casa das Máquinas (Esse último o patrocinador), o Repórter Cruzeiro ( patrocinado pelas Lojas a Cruzeiro) e o Correio do Ceará na TV, apoiado pelo jornal Correio do Ceará, também vinculado ás emissoras associadas.

 

Os comerciais locais consistiam de apresentadores expondo o produto ao vivo e slides, sendo os comerciais filmados um luxo de produtos de fora.

 

Havia um programa cômico em torno dois personagens - Praxedinho e Anicetinha, que eram vividos por Marcus Miranda e Maria Luísa que faziam um enorme sucesso na cidade, bem como “O Contador de Histórias” que levava ao ar inclusive clássicos da literatura universal, em produções montadas no enorme estúdio do Canal 2, com direito a cenário e caracterização de época dos personagens, tudo armado com muito apuro e competência. A sonoplastia herdada do rádio dava aquele recado devidamente adaptada à realidade televisiva.

 

OS SERIADOS

 

As séries televisivas retratavam uma época bem mais inocente, na qual a violência urbana só se fazia presente mesmo em filmes de ação.

 

Dublados em versão brasileira pela Cinecastro e Herbert Richers, os seriados consistiam de ou de faroestes convencionais com muito tiro, briga e curiosamente sangue nenhum, mais parecendo às vezes brincadeira de criança sendo filmada, guardando é claro, as devidas proporções, ou então séries de aventura nas quais o suspense passava na frente da violência espetaculosa e gratuita.

 

Zorro, Bonanza, Jet Jackson, Rin-tin-tin, Patrulheiros Toddy, eram opções hoje lembradas para quem teve o privilégio ser criança na época. Essa última série patrocinada pelo chocolate em pó Toddy promovia um sorteio que dava direito a um uniforme de patrulheiro americano, com distintivo e dois revólveres para a garotada sorteada, sorteio a vivo, para suspense da meninada.

 

Os desenhos animados como Popeye, Flintstones, Dom Pixote, Disneylândia e outros, também estavam na ordem do dia. Curiosamente, oito horas da noite era o limite para a programação permitida para a turminha miúda, de modo que um slide aparecia no Canal 2 com a frase “Boa Noite Garota” botando a moçadinha para dormir. É lógico que isso nem sempre funcionava, mas o certo é que os seriados mais violentos como “Os Intocáveis”, retratando a luta de agentes federais americanos contra gansgters na década de 30 nos EUA, passavam muito “tarde” ou seja depois das nove da noite, uma hora bem avançada para a época. Isso para a meninada não ter acesso a eles.

 

TELEVIZINHOS

 

Como os televisores eram ainda bem caros, nem todo mundo tinha acesso à novidade, de modo que os amigos vizinhos enchiam as salas de visitas para partilharem com o dono da casa com a recente inovação da mídia, isso sem contar a meninada que entrava e se espalhava pelo recinto sentada no chão e a turma do sereno que pendurada nas janelas e portas desfrutava da magia do novo e mágico veículo - a televisão.

 

INOVAÇÕES

 

A partir de 1966, com a chegada do vídeo tape as novelas e produções televisivas da região sul do país, foram minguando as produções locais, contudo as realizações como os programas de auditório ainda resistiram por um bom tempo. Programas como “Porque hoje é sábado” de Gonzaga Vasconcelos e “Show do Mercantil” com Augusto Borges, isso já no final da década de 60, para início dos anos 70, começaram a revelar talentos musicais cearenses, como Fagner, Ednardo, Belchior, e o Conjunto Musical Big Brasa, que como banda contratada deste último programa, se apresentava e acompanhava os artistas presentes, função desempenhada também no programa Estúdio 2.

 

Por falar em música jovem, o programa “TV Juventude” apresentado por Paulo Limaverde nas tardinhas de sábado revelou muitas bandas de Jovem Guarda locais como Rataplans, Desafinados, Dangerous, Brasas e outros além de privilegiar as dublagens que era o dublador fazendo mímica em cima de um disco executado pela técnica. Marco Aurélio era considerado o rei da dublagem, isso tudo em meados dos anos 60, o apogeu do iê-iê-ê que se convencionou chamar de Jovem Guarda.

 

O CAMINHO DO FIM

 

Com a chegada a Embratel e das transmissões via satélites dos programas da Rede Tupi de Televisão, que agregava a TV Ceará Canal 2, aos Diários Associados, as produções locais começaram a sofrer uma lenta retração.

 

A chegada de outras emissoras como a TV Verdes Mares Canal 10, a TV Educativa canal 5, e a TV Cidade Canal 8 ao longo da década de 70, bem como a implantação do novo sistema de transmissões coloridas, criou um impacto concorrencial decisivamente marcante para a decadência da estação de TV pioneira no Ceará, que continuou operando no já obsoleto formato em preto e branco, o que ocasionou a migração dos anunciantes para os canais já atuando na nova formatação a cores.

 

Em julho de 1980, após uma triste e comovida vigília de apelos de velhos profissionais da moribunda TV Ceará Canal 2, para que não deixassem morrer a estação pioneira que trouxera com brilhantismo a televisão para o Ceará, a emissora saiu do ar definitivamente, deixando, contudo um capítulo aberto de uma história de muito talento, competência e criatividade para as gerações globalizadas que viriam a seguir.

 

 

Luiz Antônio Alencar - Eterno Big Brasa, músico e jornalista



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